Sem querer deletei todo o antigo blog. O Quadrante Delta ficou ainda mais perdido no espaço... Através deste novo veículo retorno àquelas paragens. Refaço o caminho, reconheço o trajeto e, embora não possa recuperar o que já está perdido, o quadrante ainda reserva mundos inexplorados. Boa viagem!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Relatos II


MODOS DE CHEGAR

Pensando aqui na forma como cada um dos meus filhos veio ao mundo, e em como parece que se relaciona com o seu estar aqui, com o jeitinho de cada um deles na vida.

Iuri entrou de cabeça. Rápido. Simples. Escorregando. Mergulhou na vida inteiro.

Dimitri enfiou o pé na porta. Antes da hora. Uma confusão. Saiu com o pé direito na frente, enfrentou barreiras, tensões, mas nós dois sabíamos que ele era forte. Nasceu resistente, sisudo, decidido.


Miro estava na dele quando o espaço ficou gigante. Nasceu de bunda, mas flutuando em seu próprio universo. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Relatos I


Tive que parir meus meninos num hospital
Pari numa sala sem nenhuma janela.
Os hospitais são assim, sem janelas.
Eu não sou...

Eu sou aquela que, criança, já deitava no parapeito
Lá eu ficava, ficava, ficava entre o dentro e o fora
Sentindo o sol
Recebendo a luz
Olhando direto no olho do vento

Eu amo janelas.
Preciso delas, na verdade...

No dia em que pari meus meninos, eu pari numa sala sem janelas.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O sistema burocrático de trabalho, a cegueira médica e a minha saúde (ou falta dela).

Tenho uma saúde de ferro. Fora umas questões respiratórias aqui e ali com as quais convivo como boa paulistana eu não tenho queixa de nada quase nunca. Não fico doente, não vou a hospitais e não tomo remédios por anos a fio. Desde a idade adulta febre tinha vindo uma vez, há 15 anos atrás, apenas. Antibiótico tive que tomar após uma mastite insistente no ano passado, após tentar diversas formas não farmacológicas para cuidar da não evolução do quadro. Como acredito que mesmo essas intervenções podem ter seus momentos, quando chegou a hora eu aceitei a medicação.

Mas acredito sim que a saúde tem que ser centrada na saúde, e não na doença. No indivíduo e não no livro médico. Na qualidade de vida e não na privação de vida. No poder dos alimentos e da felicidade e não no das caixinhas de remédios. 

Tenho certeza de que quanto mais remédios nós tomamos mais dependentes ficamos deles. Mais fracos. Mais debilitados. E que isso se propaga para as demais gerações. Nunca fui muito de remédios, mas confesso que anos atrás já estava habituada a acabar de cara com um resfriado antes dele começar, me viciei em um negócio forte para desentupir o nariz e tomava uns analgésicos de vez em quando. A indústria é poderosa, ela fala: "Acabe com a gripe antes dela acabar com você". "Respire melhor!" e coisas do tipo.

Acontece que a doença tem sua função no organismo e quando ela vem é importante deixá-la cumprir seu papel. Ficamos mais fortes quando vivemos e enfrentamos pequenas doenças (físicas ou emocionais) e crescemos quando lidamos com a dor. Na gestação consegui me livrar de qualquer remédio e hoje é fundamental pra mim observar os sinais reais do meu corpo, sem camuflar sintomas. Para lidar com eles em alguns momentos recorro à romã, ao mel, gengibre, inhame e coisas do tipo. Principalmente: acredito no poder de uma boa alimentação, sono e satisfação pessoal nessa equação toda chamada saúde.

Mas o que vim contar aqui foi outra coisa. Uma semana atrás fiquei doente. Descobri enfim o que é uma gripe já que até hoje só tinha passado por resfriados. Nunca havia ficado tão mal. Fui trabalhar achando que minha dor de cabeça era falta de sono apenas, logo percebi que não conseguia me manter nem sentada, quanto mais de pé. Voltei pra casa e dormi, dormi, dormi muito. Eu sabia que meu corpo precisava de repouso, decidi que no outro dia se não acordasse bem não iria trabalhar.

Foi o que eu fiz: faltei. Eu poderia ter ido a um PS pedir um atestado, mas eu sei bem como essas coisas funcionam, você fica lá de 3 a 5 horas, é mal atendido e no fim perdeu o dia que deveria estar descansando. Assumi isso e faltei simplesmente. Eu queria e precisava dormir. Achei que logo melhoraria.

No dia seguinte (sábado) eu estava ainda pior, muita dor e não conseguia descansar como antes. Como Iuri também estava doente eu temi por ele e resolvi que gostaria de passar no PS para descartar qualquer coisa mais grave. Aí começou a saga.

Com Iuri a médica examinou e perguntou. É incrível como eles acham estranhíssimo a gente não medir a temperatura. É incrível como tudo é número e fórmula pra eles. O pulmão e a garganta estavam bem, receitou só um antitérmico que dei ali pra nunca mais. Fiquei tranquila e por isso a primeira visita ao hospital do pequeno valeu a pena.

Comigo já não foi bem assim. O médico nem tocou em mim, resolveu pedir um hemograma. Eu fiz e falei que voltaria no dia seguinte, pois não deixaria meu filho mais duas horas no hospital esperando um exame. 

No domingo me senti melhor deitada pela primeira vez, mas tinha muita fraqueza e enjoo ao levantar. Voltamos para ver o resultado do exame. A médica foi um pouco mais atenciosa, me indicou soro com antiflamatório que aceitei a contragosto. No fim ela me deu um atestado pra segunda pois é uma droga, mas eu não podia mais ficar faltando assim. Falou que eu precisava me hidratar e essa foi a melhor coisa que ouvi.

Segunda fiquei em casa, descansei, comi e tomei líquidos, mas não melhorei. A médica disse que eu poderia voltar se não melhorasse, mas estava sozinha com Iuri, doente, numa noite fria, não fazia sentido eu jogar no lixo meu repouso necessário para pegar condução com uma criança e ir até o PS por causa de um mísero atestado. Resolvi que ia trabalhar na terça.

Terça fui para o trabalho. Iuri estava bem, mas eu não. Senti fraqueza o tempo todo, tive dificuldade de subir as escadas, dificuldade para comer e além de tudo estamos trabalhando no meio de uma obra e ficamos o dia todo sem luz nas lâmpadas, apenas com os computadores ligados no escuro. Na hora do almoço dei uma passada em casa e deitei um pouco. Foi maravilhoso! Como era fácil entender o que meu corpo precisava (e ainda precisa)! Apesar do pequeno descanso o trajeto já acabou comigo e cheguei muito cansada de volta ao trabalho naquele mesmo dia.

Quarta (hoje) resolvi que precisava respeitar o meu corpo e suas necessidades, eu ainda me sentia mal de manhã, por isso decidi ir ao PS de novo. Minha mãe ficou com Iuri para eu poder descansar.

Às 8h eu já estava no PS, eu não queria ir, mas se eu não fosse eu não teria assegurado meu direito de repouso durante a doença. Esse é o sistema de merda que a gente vive, a médica do domingo sabia que ia demorar pra passar e não me deu mais que um dia de atestado. Se eu não volto ao PS tenho que ir trabalhar sem ter condições pra isso, se vou ao PS começa meu martírio:

Quatro horas no PS. Quatro horas que eu deveria estar descansando na minha cama, no meu quarto arejado, me hidratando e me alimentando, aproveitando o momento que eu tinha ajuda com o meu filho, pois a noite talvez ele não me deixasse dormir. A médica resolveu pedir outro hemograma, um raio x e me colocar no soro. Fiquei lá numa cadeira, no porão do hospital, sem janela, sem acesso a telefone e internet, sem travesseiro, sem poder descansar.

Eu só queria meu atestado. Queria meu direito ao descanso. 

Por que eles têm que ter esse poder de dizer ao nosso empregador que a gente pode ou não descansar? Que a gente precisa ou não? E por que eles não deixam a gente descansar simplesmente?

Nenhuma recomendação sobre água, sobre alimentação, sobre repouso, nenhum olhar humano. 

De um lado um empregador que quer padronizar por sistema horas de trabalho sem nenhum olhar individual, nem às funções (mas isso é outro assunto), nem às pessoas. Um empregador que legitima o sistema centrado no médico, no hospital, na doença e na burocracia. Se eu tivesse apoio do meu empregador para descansar, poderia voltar ao trabalho aos poucos, da minha casa, deitando um pouco entre  um e-mail e outro, e voltaria a produzir melhor e mais cedo, sem ter que ficar implorando atestado pra não ser engolida pelo sistema.

Do outro lado um sistema de saúde baseado na doença, hospitais que inventam sempre um milhão de coisas para você não sair daqueles corredores (talvez para ganharem mais dos planos). E te furam, e te medicam, e te mandam pra enfermagem sem explicar nada. Médicos incapazes de olhar para a vida presente no paciente, só veem a doença, só receitam remédios, só te olham através de exames. 

Eu só queria que me permitissem descansar, mas parece que boa parte dos médicos não consegue apenas perceber isso. É uma cegueira, triste cegueira.

Saí de lá no meio do dia. "O atestado é pra amanhã também?" eu pergunto.
 "Não, é só pra hoje." ela diz. 
"E se eu não estiver bem amanhã?" 
"Amanhã você volta"
"Mas aí eu fico presa aqui e não consigo descansar!"
"Você descansa hoje" disse ela depois de roubar metade do meu dia 





quarta-feira, 20 de maio de 2015

Uma questão linguística


Por que não se conjuga o verbo parir?

Preste bem atenção: com exceção de círculos muito específicos de pessoas, ao se falar de um nascimento a última coisa que ouvimos é que a mulher pariu. Usamos vários substitutos para dizer a mesma coisa.

Normalmente focamos apenas no bebê:
João nasceu esta noite. / Ana chegou com saúde, 50cm e 3 quilos.

Quando falamos da mulher usamos eufemismos esquisitos como
Maria deu à luz Vitória às 6h45 da manhã. /Quando Lia teve bebê a família toda foi visitar. / Joana ganhou neném ontem.

Raramente se fala do parto, mas quando se fala, ele é substantivo, quase nunca verbo.
Lúcia teve parto normal. / O parto de Miriam foi longo e doloroso. / Os partos de Celeste são muito rápidos.

Como se mulher não fosse sujeito de conjugar, sujeito de escolher, sujeito agente.

Como se parir não fosse verbo de ação, verbo forte, daqueles de mudar as coisas.

Querem-nos pra sempre sujeitos pacientes, transformam nosso maior ato em objeto e nos dão verbos fracos, opacos, sem significado. Sujeito paciente só merece verbo de ligação, diz a norma. E o verbo, transformado em objeto, torna-se mais forte que o próprio sujeito, mas se esvanece na falta de ser ação, sua natureza primeira. Todos perdem.

Culturalmente, quando usamos eufemismos para falar de nascimento sem citar o parto, o maior evento da vida da mulher fica escondido. Tentam amansar a experiência, suavizá-la, poetizam o preconceito.

Quando, raramente, ele aparece, é substantivo da voz passiva e quase nunca verbo. A mulher teve parto, mas não pariu. Pariram por ela. A amarraram, constrangeram, anestesiaram e cortaram. Dessa forma, ela não pari, tem um parto mesmo.

O uso corriqueiro das palavras reflete nossa realidade obstétrica. Reflete também nossos preconceitos com a mulher e seu poder de parir já que, mesmo entre as que pariram espontaneamente, o verbo não costuma ser conjugado em voz alta.

Parir é coisa de bicho. É forte e sexual. É poder que o homem não tem.

Ninguém quer mulher com poder, nem com força, nem com sexo.

Dessa forma não lemos o verbo em lugar nenhum, não aprendemos a conjugá-lo, não nos acostumamos a usá-lo. Para escrever este texto fui tirar algumas dúvidas sobre a conjugação correta do verbo parir já que eu também o leio pouco.

Então aí vai, a conjugação que eu queria ver na boca de todo mundo:

Eu pari meu filho e foi maravilhoso
Quando tu parires saberás
Minha avó paria em casa como eu
Nós parimos menos hoje que no passado, mas
Vós parireis e ninguém impedirá.

Porque mulheres parem.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Por que os museus devem receber também bebês e crianças pequenas?


         
Quando falamos sobre a visitação de bebês e crianças pequenas nos museus e sugerimos ações direcionadas especificamente para esse público, muitas pessoas reagem com surpresa. Alguns com agradecida surpresa, uma vez que já procuravam espaços e ações que levem em conta a participação dos pequenos. Outros demonstram uma surpresa curiosa, enxergando nessas novas práticas um quê de inusitado.

Já me perguntaram algumas vezes: mas por que o museu precisa receber crianças pequenas? Por que os bebês precisam ir aos museus?

Ora, são duas perguntas diferentes, já que uma está centrada na criança e outra na instituição.

O bebê, em si, não "precisa" necessariamente ir ao museu, o que ele e seus cuidadores precisam, é ter essa porta aberta, invariavelmente. Os museus são espaços privilegiados para a criação de sentidos e bebês e crianças pequenas experimentam o tempo todo a criação e elaboração desses sentidos no mundo, junto às pessoas que amam e que são responsáveis por eles.

A formulação de sentidos é exercitada pela criança em todos os espaços que frequenta, da casa dos avós à mesa do restaurante; da água que corre para o ralo ao avião que passa fazendo barulho; do balbucio e primeiros vocábulos às conversas sem palavras, aquelas que estão nas entrelinhas do fazer e do estar.

Pais e cuidadores, por sua vez, buscam lugares onde podem participar das descobertas de suas crianças, lugares que considerem como potenciais descortinadores de sentidos, já que a maioria dos adultos se distanciou da capacidade de buscar (e criar) sentido nas coisas do dia-a-dia.

E que lugares seriam esses? Para muitas pessoas serão os parques, para alguns será o contato com a natureza, para outros os ritos familiares ou religiosos. Alguns vão buscar esses sentidos nos marcos simbólicos de sua cidade, alguns os encontrarão na prática e no contato com a arte e outros nos museus.

Por serem locais privilegiados para a criação de sentidos os museus são espaços perfeitos para esse encontro intergeracional e precisam estar abertos (não só física, mas conceitualmente também) a quem deles quiser desfrutar.

Já me perguntaram também sobre a importância dos bebês frequentarem museus para estabelecerem, desde cedo, o contato com a arte. Mas vejam, os bebês não precisam estar nos museus para terem contato com a arte, pois - como já nos lembrou Anna Marie Holm - eles não separam a arte das outras experiências que vivem, sendo toda experiência física, emocional, cognitiva e também estética.

É claro que o contato com a obra de arte também traz um repertório muito rico para essa criança que descobre o mundo e é portanto positivo, especialmente se o adulto que a acompanha tiver uma ligação afetiva com o objeto artístico.

O que quero ressaltar aqui é a importância das relações humanas envolvidas em uma visita ao museu. Para a criança pequena a grande qualidade dessa experiência é estar junto aos que ama, em um lugar com grande potencial para criação de sentidos - inclusive para os adultos - e poder COMPARTILHAR descobertas e valores.

Através da ocupação do espaço público crianças e adultos compartilham valores específicos daquela família, como a maneira de se colocar e participar, a vivência do coletivo, o encontro com as diferenças, a apropriação do bem comum, o zelo por ele e etc. Por isso é tão rica e importante a presença de grupos familiares na cidade, nas praças, nos parques, nos espaços decisórios e de cultura.

Os museus, como instituições públicas tem o dever não só de preservar, pesquisar e "comunicar" os resultados de suas pesquisas à população, mas de fazerem-se abertos à participação de todos. É importante que essa participação encontre espaço para ser ativa, criativa e crítica, como nos lembra Mauricio Segall, pois o museu também é espaço de cidadania. E é fundamental ainda que nesse "todos" estejam incluídas as crianças, como seres que existem hoje, são reais, criam e interagem, e não como meras promessas para o futuro.

Mais do que isso, quando pensamos em bebês e suas famílias, quando pensamos nas mulheres no puerpério que trazem consigo seus bebês pequenos e tantas outras questões, quando pensamos em mães que amamentam, em pais solteiros, em avós que cuidam de seus netos, nos deparamos com um grupo ainda invisível de cidadãos no que se refere às políticas culturais.

Invisíveis porque foram segregados, há muito tempo e em diversos níveis, do convívio social; excluídos dos encontros entre amigos, da mesa compartilhada nas refeições, dos espaços de cultura e tantos outros. Invisíveis porque ficaram destinados a ambientes extremamente privados e controlados, como nos lembra Laura Gutman. Ambientes onde poderão ficar "protegidos" ou de onde não incomodarão ninguém com seus choros, suas fraldas, suas pequenas mãos sujas e seus movimentos imprevisíveis.

Ainda mais invisíveis quando nos desacostumamos tanto a sua presença que chegamos a ficar surpresos quando encontramos na padaria um pequeno grupo de mães com seus bebês de menos de três meses.

Por tudo isso, os museus, além de serem espaços privilegiados para a criação de sentidos, o reconhecimento identitário, a interação humana e a vivência de valores, também tem o dever - pela sua vocação pública - de olhar atentamente para os grupos invisíveis da nossa sociedade (esse e tantos outros), dialogar com eles, abrir-se para sua presença, sua participação.


Mais do que nunca, é preciso sentar-se no chão, ouvir e acolher.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Da concepção à marcha – 27 meses /27 mitos

Na gestação, parto e maternidade há uma porção de procedimentos afirmados repetidamente pelo senso comum, reforçados pela cultura médica e pela mídia (consumo) que muita gente simplesmente segue, sem parar pra avaliar. Pensando desde a concepção até os 18 meses do bebê, escrevi abaixo sobre 27 mitos desse início de maternidade e proponho apenas que você pare pra pensar sobre eles. No fim, talvez você ainda decida por manter uma, algumas ou muitas dessas escolhas, mas se assim for, que sejam escolhas legítimas suas, pensadas por você, e não o que a prima da vizinha da amiga disse.

1. Filho tem que ser planejado – Nem sempre, conheço famílias maravilhosas de filhos surpresa. Tão maravilhosas que me fizeram repensar a espontaneidade da coisa.
2. Você precisa escolher logo o nome – Mesmo depois que o bebê nascer você ainda tem tempo, horas, dias, até meses pra isso.
3. Você deve saber o sexo, ou como fará o enxoval – Pense diferente, desafie as roupas muito vinculadas a gênero, antes de menino ou menina você terá um bebê. Desafie a família a não saber o sexo. Você mesma não precisa sabê-lo. Já se perguntou por que isso é tão importante pra você? É uma boa pergunta.
4. Ainda é cedo pra falar sobre o parto – Nunca é cedo (ou tarde se o bebê ainda não nasceu) pra falar sobre o parto. O parto é seu, você precisa falar dele.
5. Você vai gastar muito, um bebê precisa de berço, carrinho e um milhão de coisas – Não, ele não precisa. Isso é a cultura do consumo. Seu bebê só vai precisar de vc, umas fraldas e uns panos ao nascer. De verdade!
6.  O médico disse, tá certo. Ele estudou pra isso, ele sabe – Sinto dizer que isso está muito, muito longe da verdade. Se os médicos fossem bem preparados não estaríamos no país campeão de cesarianas.
7.  Você precisa escolher o hospital mais equipado – Na verdade você nem precisa parir num hospital.
8. Você precisa fazer vários ultrassons, especialmente no final da gestação – Se sua gestação estiver normal, não é necessário nenhum US após o segundo morfológico.
9. O quarto tem que estar pronto – Já pensou que um recém nascido não precisa de um quarto? De quem é, afinal, essa necessidade?
10. Você deve obedecer os 40 dias de resguardo – Não. Você pode voltar à vida sexual antes, ou muito depois. Quem decide é você! Quem sente é você.
11. Os primeiros meses são terríveis – Nem sempre. Para algumas famílias não são, e mesmo para quem tem um pós parto difícil as questões envolvidas nesse período variam muito entre uma mulher e outra, uma família e outra. Suas questões podem, por exemplo, não ter nenhuma relação com as cólicas, as fraldas e a privação de sono. O puerpério é uma surpresa.
12. O que importa é que nasceu bem – É claro que isso importa, mas você tem sim, direito de sofrer por um parto que não foi o que você esperava e essa dor é legítima, não deixe ninguém dizer que não.
13. Você vai ser cortada por cima ou por baixo – Isso é conversa de médico desatualizado (infelizmente a maioria). A episiotomia (corte no períneo durante o parto normal) é violenta e desnecessária. A vagina tem toda a força e elasticidade necessária para deixar passar nossos filhos, permanecer íntegra e voltar ao tônus anterior naturalmente.
14. O bebê deve dormir no berço desde a primeira noite – Na verdade ele nem precisa dormir no berço nunca, pode ir da cama do casal à própria cama no chão, nos moldes de um quarto montessoriano, quando for a hora. Você já parou pra pensar que somos os únicos mamíferos que separam os filhotes de suas mães ao nascer?
15. O leite materno não é suficiente – Ele é. Seu bebê estará muito bem nutrido apenas com ele até os seis meses de idade. Não precisa dar água, nem suco, nem papinha. Se tiver dificuldade de amamentação procure ajuda de gente que luta pela causa, infelizmente o mundo atual não apóia a amamentação.
16. Colo demais deixa o bebê mal acostumado – Contato é segurança. O bebê quer a segurança de estar com a mãe, então por que negá-la? Provavelmente seu instinto dirá pra você acolher seu filho, já pensou como é artificial essa recomendação? Bebês que tem bastante colo e atenção crescem mais seguros e confiantes.
17. O bebê deve aprender a dormir sozinho desde cedo – Ele não terá a vida toda pra aprender isso? Por que não pode contar com o acolhimento e ajuda de sua mãe em seus primeiros anos fora da barriga?
18. Ele está fazendo seu peito de chupeta – Na verdade é o contrário né? A chupeta é que tenta substituir o peito, mas sem o colo, sem o calor e sem o amor que podemos dar.
19. Ele está magro/gordo demais, melhor complementar – Assim como existem pessoas magras, pessoas gordas, pessoas altas, pessoas baixas os bebês também não são um modelo matemático. Qual o problema de estar abaixo da curva? Outros sinais podem dizer se seu filho está bem como urina, fezes, atividade, interação, etc,  dependendo da idade dele.
20. Bebês precisam de mamadeiras – Não, eles precisam é do peito. Quando estiverem com outro cuidador podem tomar seu leite em um pequeno copo, ou em uma colherinha. Nenhum bebê precisa de mamadeira.
21. Bebês precisam tomar leite artificial ou de vaca – O leite materno é melhor e responsável por boa parte dos nutrientes de uma criança até os dois anos de idade, pois é feito pra ela e muda conforme ela cresce. O único que precisa de leite de vaca é o bezerro, pelos mesmos motivos.
22. Você precisa de um carrinho – Nos primeiros meses do bebê ele ficará muito melhor no colo ou no sling, além de ser mais fácil e compacto. Depois depende muito de cada família, alguns acham bem útil, outros não. Mas por que comprar algo tão caro antes do nascimento sem nem saber se vocês vão querer usar?
23.  Bebês precisam comer papinhas – Comida é cultura familiar. Quando o bebê começa a experimentar outros alimentos ele pode começar com pedaços grandes de legumes cozidos, que ele mesmo pode segurar. Se a comida da família for saudável ele logo poderá comer as mesmas coisas. E por que não seria?
24.  Ele vai ficar com vontade se você não der um pouquinho do seu chocolate pra ele – Você faria a mesma coisa com a cerveja?
25. Meninos precisam cortar o cabelo – Ter filhos é uma boa oportunidade para questionar os padrões de gênero. Por que cortamos o cabelo dos meninos e colocamos brinco nas meninas?
26. Não saia de casa sem vacinas – Criança que mama no peito está bastante protegida. Tomando alguns cuidados não há porque não sair com eles ou cobri-los de picadas nos primeiros meses.
27. Fraldas de pano dão muito trabalho – Na verdade, com máquina de lavar em casa, as fraldas de pano contemporâneas dão menos trabalho do que sair para comprar as descartáveis. Além de serem mais sustentáveis, baratas, saudáveis e bonitas.

Por fim, ao pensar nas coisas das quais "o bebê precisa", pense se é realmente ele que precisa. Ou se é o adulto que criou essa necessidade. Pode ser muito mais simples do que você imagina ;-)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Sobre repressão e resistência

     Hoje fiquei em choque. Recebemos um grupo lá no museu de uma escola religiosa (não era católica), uma turma só de meninas. As meninas não podiam visitar todas as salas da exposição, pois não podiam ver nus.  Nenhum tipo de nu.
       O nu é natural, faz parte da natureza e da arte, difícil trabalhar com arte proibindo o nu.
      Mas como também é tabu em nossa sociedade hipócrita e recalcada e esse não foi o primeiro grupo a ter “problemas” com as obras que envolvem o tema.  No caso específico do Segall não falar de nu também implica em não falar da prostituição e todas as questões sociais envolvidas, trabalhadas delicadamente pelo artista. Perde-se tão rico ponto de discussão...
      Mas a peculiar visita foi além: pela recomendação da escola não devíamos entrar em detalhes sobre a vida do artista, não poderíamos abordar seus dois casamentos e, pasmem, não deveríamos questionar muito as crianças. “Elas não costumam ser questionadas”, nos disseram.
      Me vi num misto de surpresa e revolta. Como, em 2013, ainda existe tanta repressão neste mundo? Por que isso? Onde esse modelo encontra apoiadores?
     Lembrei que era um grupo feminino e isso me deu mais raiva ainda. Por que reprimir assim nossas meninas? As mulheres já suportam tanta discriminação e descrédito velados no mundo aqui fora, já crescem inseguras nas escolas tradicionais por aí, bombardeadas pelos modelos infalíveis da mídia, pelas expectativas por suas sexualidades, seus corpos, seus afetos. Por que também fechá-las num mundo a parte onde não podem oferecer nem procurar respostas que lhes satisfaçam?
     Ora, o problema não está em ser um grupo feminino em si. Eu já trabalhei com grupos femininos por muitos anos e participo hoje de grupos de mães que buscam uma maternidade ativa e consciente e sei o quanto os grupos femininos também podem ser espaços de resistência, de fortalecimento e de luta. Ao contrário do que muitos pensam, nós, mulheres, assim como outras minorias, precisamos desses grupos, desses focos de força e mudança.  É tão potente isso. Pode ser tão potente um grupo de mulheres!
      E tudo isso me fez pensar nesses espaços de gênero no século XXI e como é impossível que sejam neutros. “Aqui falamos sobre livros”; “Aqui falamos sobre gestação”... Pode ser, mas nunca é só sobre uma coisa ou outra. Quando se está num grupo só de mulheres automaticamente se fala do feminino e se fala de sociedade, política e questões de gênero. Ou há luta, ou há reforço do estabelecido. Ou há resistência ou há aceitação. Ou há feminismo, ou há machismo.

      E as meninas da visita, hoje, que não podiam ser questionadas?
      Questionaram. Pra caramba!
    Mas eu não consegui ficar otimista, fiquei pensando em que transformarão toda essa educação repressora no futuro...