Hoje fiquei em choque. Recebemos
um grupo lá no museu de uma escola religiosa (não era católica), uma turma só
de meninas. As meninas não podiam visitar todas as salas da exposição, pois não
podiam ver nus. Nenhum tipo de nu.
O nu é natural, faz parte da natureza e da
arte, difícil trabalhar com arte proibindo o nu.
Mas como também é tabu em nossa
sociedade hipócrita e recalcada e esse não foi o primeiro grupo a ter “problemas”
com as obras que envolvem o tema. No
caso específico do Segall não falar de nu também implica em não falar da
prostituição e todas as questões sociais envolvidas, trabalhadas delicadamente
pelo artista. Perde-se tão rico ponto de discussão...
Mas a peculiar visita foi além:
pela recomendação da escola não devíamos entrar em detalhes sobre a vida do
artista, não poderíamos abordar seus dois casamentos e, pasmem, não deveríamos
questionar muito as crianças. “Elas não costumam ser questionadas”, nos
disseram.
Me vi num misto de surpresa e
revolta. Como, em 2013, ainda existe tanta repressão neste mundo? Por que isso?
Onde esse modelo encontra apoiadores?
Lembrei que era um grupo feminino
e isso me deu mais raiva ainda. Por que reprimir assim nossas meninas? As
mulheres já suportam tanta discriminação e descrédito velados no mundo aqui
fora, já crescem inseguras nas escolas tradicionais por aí, bombardeadas pelos
modelos infalíveis da mídia, pelas expectativas por suas sexualidades, seus
corpos, seus afetos. Por que também fechá-las num mundo a parte onde não podem
oferecer nem procurar respostas que lhes satisfaçam?
Ora, o problema não está em ser
um grupo feminino em si. Eu já trabalhei com grupos femininos por muitos anos e
participo hoje de grupos de mães que buscam uma maternidade ativa e consciente
e sei o quanto os grupos femininos também podem ser espaços de resistência, de
fortalecimento e de luta. Ao contrário do que muitos pensam, nós, mulheres,
assim como outras minorias, precisamos desses grupos, desses focos de força e
mudança. É tão potente isso. Pode ser
tão potente um grupo de mulheres!
E tudo isso me fez pensar nesses espaços
de gênero no século XXI e como é impossível que sejam neutros. “Aqui falamos sobre
livros”; “Aqui falamos sobre gestação”... Pode ser, mas nunca é só sobre uma
coisa ou outra. Quando se está num grupo só de mulheres automaticamente se fala
do feminino e se fala de sociedade, política e questões de gênero. Ou há luta,
ou há reforço do estabelecido. Ou há resistência ou há aceitação. Ou há
feminismo, ou há machismo.
E as meninas da visita, hoje, que
não podiam ser questionadas?
Questionaram. Pra caramba!
Mas eu não consegui ficar
otimista, fiquei pensando em que transformarão toda essa educação repressora no
futuro...
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